1984… nem tão longe assim

No romance 1984, de George Orwell, o protagonista, Winston, trabalhava em um departamento a qual não sabia o real desempenho. Ele era obrigado a reescrever tudo que fora publicado na imprensa, conforme as últimas decisões do “Grande Irmão”. O correr da história tem nos mostrado a relação entre poder ditatorial e liberdade de expressão. Napoleão ao tomar o poder na França proibiu todas as publicações existentes. Ele criou o seu periódico. Assim, a censura tem caminhado com a ditadura em todos os períodos históricos. Limitado, antes, à queima de publicações, proibições de impressão de livros, quebras de redações e gráficas, entre outros exemplos.

Voltando ao trabalho do Winston, sua rotina era reescrever parte de notícias do passado ao agrado das últimas decisões governamentais. Claro que de modo a favorecer o governo e controlar a opinião pública – inexistente na obra. Na ficção, eliminavam-se os arquivos, mas com cópias devidamente guardadas, o que era reescrito imprimia-se quantidade suficiente para equipar as bibliotecas e registros oficiais.

O que parecia irreal em outras épocas, tem prática comum nos dias atuais. No jornalismo on-line, a reescrita, usado como um tipo de “correção” é facilmente realizado, devido à forma de publicação desta maneira de levar a notícia ao público. As páginas da web, a qual são lidas as informações na Internet, são arquivas em computadores de grande porte, chamados de servidores. Toda a Internet se baseia em linguagem de programação, em termos simples, conjunto de regras e códigos universalizados. Somado com o conteúdo (jornalístico ou não), é gerado um arquivo, e este permanecerá no servidor, podendo ser modificado, acrescentado conteúdo ou até mesmo excluído.

Os serviços de blogs oferecem maneiras simples de editar e de excluir o que se posta. O que de princípio parece inofensivo e cômodo, mas em mãos erradas poderá ocasionar a reescrita do que foi produzido. Mas, em blogs, o conteúdo é, em grande parte, fruto de visões de quem escreve. Raramente defendendo interesses políticos ou econômicos. Contudo, toda a informação contida na “teia mundial” está passiva de sofrer influências. Não é mistério para ninguém que toda a imprensa sofre alguma forma de controle. Entretanto o que está impresso dificilmente poderá ser reeditado.

Meu medo é que, com o passar do tempo, modifiquem o que foi escrito nos dias atuais. Somado ao excesso de informações que somos bombardeados todos os dias, gere, o que cada vez mais é visível, a desinformação, além da possível anulação da opinião pública. Analisando os exageros cometidos pelos meios eletrônicos, temos que concordar com Werner Herzog, ao afirmar que “A solidão humana crescerá na proporção direta da rapidez do avanço das novas formas de comunicação”.
Na obra do Orwell, pensar era proibido, escrever era condenável. O idioma transformado, encurtando a quantidade de palavras e significado. Em nossa realidade, pensar está se tornando cada vez mais nivelado, lamentavelmente para pior. Nos blogs há espaço para expor seus pensamentos, que em muitos casos são cópias de outros blogs. E o idioma (!?), nem se faz necessário comentar o “internetês”. Ainda não estão reescrevendo o passado. Ainda…

Eduardo Henrique Brandão

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