Um domingo na República das Bananas

Enquanto um famoso programa dominical tenta jogar a opinião pública contra uma portaria que visa à classificação indicativa para os programas de TV, alegando como espécie de censura, mais um jornalista foi assassinado por desempenhar seu papel.

Foi ao ar ontem, em um programa televisivo de renome, uma reportagem sobre a portaria 264/7 do Ministério da Justiça, que regula a classificação indicativa de programas, filmes ou qualquer obra de audiovisual exibidos pelas emissoras de televisão aberta. Em um discurso claramente exagerado contra o projeto, com argumentações duvidosas e, em certos pontos, não coerente com a emenda, na clara tentativa de colocar a opinião pública temerosa com a censura. O que, na verdade, esconde os reais interesses da “gigante” brasileira, contrária à nova regulamentação. Disfarçada em outras matérias, o tema censura este em voga em dois episódios. Sobre a proibição da biografia do Roberto Carlos e “cenas inéditas” sobre a censura no Brasil, datada de 1983, período mais brando da censura militar.

Por que a “poderosa” tem medo da portaria? Seria pelo conteúdo dos seus programas (digo novelas, seriados), visto que o jornalismo não será afetado pela portaria, que apenas regula horários adequados à faixas etárias. Parecido com o sistema inglês de classificação indicativa. Não sou favorável a um departamento decidir o que devo ou não assistir, tampouco afirme o que é bom ou ruim, mas as redes de televisão deveriam ter certo senso crítico ao levar programas ao ar. Infelizmente, hoje, a qualidade é medida em números do IBOPE. Com isso, a qualidade da TV brasileira cai em profundo precipício. Além do mais, a censura burocrática não seria possível nos dias atuais, devido ás novas tecnologias de comunicação.

No mesmo domingo, no interior do Estado de São Paulo, mais um jornalista tem sua voz calada pela censura econômica (e esta sim me dá medo). Luiz Carlos Barbon Filho, 37 anos, pai de duas crianças, casado, foi assassinado. A polícia suspeita de crime por encomenda. Os mandantes, segundo suspeitas, seriam os envolvidos em um esquema de aliciamento de menores, na cidade de Porto Ferreira (228 km de São Paulo). O caso tornou-se público graças às investigações do jornalista. Sua esposa afirma que recebiam ameaças pelo telefone. Barbon fechou seu jornal devido às ameaças.

Isso sim é censura.

A Associação Nacional dos Jornalistas divulgou uma nota lamentando o crime. Ficaremos só no lamento e nas palavras de indignação? Aos poucos, estão nos amordaçando, calando nossas vozes, mutilando nossos dedos, comprando nossas palavras. Silenciando-nos com chantagens, ameaças e mortes. Cadê a nossa união jornalística? Mas, tudo bem, não foi comigo mesmo. Enquanto o perigo ronda a casa do vizinho, tudo bem, não está no nosso quintal. Quando o vizinho pediu ajuda, recusamos, afinal não corremos perigo mesmo. Ele se foi. Nada fizemos, não é a nossa “realidade”, ainda está distante de nós… Hoje foi um Barbon, no passado foi um Lopes, no futuro poderá ser um Silva, um Brandão, um Pereira, um Peres… Apenas um sobrenome na lápide. Aí, meus amigos, será tarde demais.

Mas, afinal, era final dos campeonatos estaduais. Uns choravam, outros riam, outros nem se importavam. Assim se foi mais um domingo.

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Eduardo Henrique Brandão

Uma resposta para “Um domingo na República das Bananas”

  1. Rafael Rodrigues Disse:

    Olá Edu..!! Seu espaço está muito bacana, os textos parecem ter boa sustentação, é a primeira vez que o visito. O domingo realmente foi meio baqueado, algumas notícias boas, outras ruins. A imprensa brasileira perdeu mais um jornalista, convenhamos que não é nada fácil trabalhar na profissão. A única dúvida que me sobra neste caso, é até quando o jornal em que Barbon trabalhava lhe deu suporte para tal cobertura. No caso de Tim Lopes, a Globo deu total suporte. Na política o país perdeu Enéas Carneiro, deputado dos mais influentes no senado, uma verdadeira “Bomba Atômica”. Rapaz, os textos tem boa base, como eu disse, cuidado só com as frases longas e não tenha medo de expor suas opiniões, é sempre válido. Grande abraço..!!

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