Nos países em desenvolvimento há um grande divisor de águas, cuidar dos problemas que realmente assolam a maioria da população, ou ampliar e popularizar o acesso á Internet. Nestes países, o que é visível, de fato, são pequenas ilhas que copiam tecnologias – dos ditos países do primeiro mundo – em grandes centros um pouco mais desenvolvidos – se comparado o restante do país. Brasil, Índia, Chile, Argentina, Africa do Sul são ótimos exemplos. Alguns teóricos em tecnologia defendem a idéia da inclusão digital, enquanto antropólogos, sociólogos protegem questões “mais urgentes”, como a fome, a guerra, o analfabetismo, as doenças e a desigualdade social.
Nesta batalha teórica o problema tende a aumentar. Enquanto a luta é travada, no plano de fundo, o mesmo abismo que separam os “dominantes e oprimidos” é visível nos dois mundos. Tantos nos problemas reais como no que diz respeito á Internet a lacuna separadora destes extremos é gigantesca. E tende a crescer. Dados mostram que os países mais atrasados em tecnologia são os que atravessam maiores problemas sociais. O mais curioso é que, no dito terceiro mundo, quando menos a população tem acesso a informação, mais elevado é o número de corrupção e falcatruas. Existe alguma relação entre estes números? Desinformação leva ao conformismo.
Mas, afinal, o que é mais importante. Se perguntarmos á população carente, a resposta será unânime. Acabar com os problemas sociais. Porém, do outro lado, o dos defensores dos problemas “virtuais” batem na tecla que o acesso e o bom uso da Internet geram cidadania. O velho ditado chinês, ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Ocorre que nos países desenvolvidos a Internet tem criado aglutinados “sociais” em defesa de causas das mais variadas. Tais fenômenos nunca foram observados na história da humanidade. Estudiosos do assunto inclinam para a facilidade de comunicação e entendimento entre as pessoas geradas por meio dos computadores. Causam antes abafadas pelo “grande imprensa” agora tem vazão em páginas, blogs, comunidades, grupos de e-mails. As redes de redes têm levado à mudanças, não só no âmbito tecnológico, mas também na forma de socialização e de criação de valores sóciais e de cidadania. Muitos destas ações tornam proporções gigantescas e reais. Como os softwares livres e o Fórum Social Mundial.
Uma coisa é inegável. Só existe desenvolvimento econômico com auxílio do desenvolvimento tecnológico. Maio de 68, tido como marco inicial de todo o processo social que a Internet desencadeou, é um exemplo disso. Naquele período – pós-guerra – os jovens tiveram acesso ás Universidades. As instituições de ensino estavam lotadas, muito acima do limite. Milhares de jovens de toda a Europa, no período mais fértil de suas vidas, entraram em contato com o conhecimento. De lá para cá, todas as transformações do velho continente são nítidas. Os defensores da Internet se baseiam neste ponto. O conhecimento gera desenvolvimento. Diminui as diferenças, quebra barreira, cria cidadania, fomenta discussão e transformação. Desenvolve.
O decorrer da história nos mostra que, de tempo em tempo, grandes mudanças reorganizam a forma de percepção do mundo. 1968 foi um marco. Lá, os jovens perceberam que o tempo deles passava mais rápido que dos seus pais. Hoje, o tempo é mais veloz. Naquela época (maio de 1968) não existia tantas formas de comunicação como existe hoje. Porém, o contato com a Universidade colocou-os em contato com novas possibilidades de ação, de transformação de realização. Por meio da internet, este contato com a informação tem tamanho inimaginável. Mas, de outro lado, é devastadora a forma que a tecnologia tem se desenvolvido. Tendendo, assim, a excluir cada vez mais os já excluídos tecnologicamente. Como a própria história nos mostrou, sempre foi possível uma nova tecnologia para o desenvolvimento humano. Desde a invenção das ferramentas em pedra lascada até a corrida (maluca) ao espaço, o homem acresceu ao que já acumulava de conhecimento e misturando imaginação e ciência criou alternativas para o que era até então proposto. Desta forma, pensar que a tecnologia atual está estanque, é retrógrado. É andar na contramão da história.
Resta aos senhores da tecnologia um olhar mais amplo e menos egocentrista. O conhecimento humano é para toda a humanidade e não para um pequeno círculo de “senhores feudais do conhecimento”. De nada adiantará novas formas de tecnologia se continuarem escondidas ou inacessíveis.
Eduardo Henrique Brandão
Texto publicado no http:\\eduardohb.wordpress.com em 18/05/2007