Inclusão sócio-digital

Maio 29, 2007

Nos países em desenvolvimento há um grande divisor de águas, cuidar dos problemas que realmente assolam a maioria da população, ou ampliar e popularizar o acesso á Internet. Nestes países, o que é visível, de fato, são pequenas ilhas que copiam tecnologias – dos ditos países do primeiro mundo – em grandes centros um pouco mais desenvolvidos – se comparado o restante do país. Brasil, Índia, Chile, Argentina, Africa do Sul são ótimos exemplos. Alguns teóricos em tecnologia defendem a idéia da inclusão digital, enquanto antropólogos, sociólogos protegem questões “mais urgentes”, como a fome, a guerra, o analfabetismo, as doenças e a desigualdade social.

Nesta batalha teórica o problema tende a aumentar. Enquanto a luta é travada, no plano de fundo, o mesmo abismo que separam os “dominantes e oprimidos” é visível nos dois mundos. Tantos nos problemas reais como no que diz respeito á Internet a lacuna separadora destes extremos é gigantesca. E tende a crescer. Dados mostram que os países mais atrasados em tecnologia são os que atravessam maiores problemas sociais. O mais curioso é que, no dito terceiro mundo, quando menos a população tem acesso a informação, mais elevado é o número de corrupção e falcatruas. Existe alguma relação entre estes números? Desinformação leva ao conformismo.

Mas, afinal, o que é mais importante. Se perguntarmos á população carente, a resposta será unânime. Acabar com os problemas sociais. Porém, do outro lado, o dos defensores dos problemas “virtuais” batem na tecla que o acesso e o bom uso da Internet geram cidadania. O velho ditado chinês, ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Ocorre que nos países desenvolvidos a Internet tem criado aglutinados “sociais” em defesa de causas das mais variadas. Tais fenômenos nunca foram observados na história da humanidade. Estudiosos do assunto inclinam para a facilidade de comunicação e entendimento entre as pessoas geradas por meio dos computadores. Causam antes abafadas pelo “grande imprensa” agora tem vazão em páginas, blogs, comunidades, grupos de e-mails. As redes de redes têm levado à mudanças, não só no âmbito tecnológico, mas também na forma de socialização e de criação de valores sóciais e de cidadania. Muitos destas ações tornam proporções gigantescas e reais. Como os softwares livres e o Fórum Social Mundial.

Uma coisa é inegável. Só existe desenvolvimento econômico com auxílio do desenvolvimento tecnológico. Maio de 68, tido como marco inicial de todo o processo social que a Internet desencadeou, é um exemplo disso. Naquele período – pós-guerra – os jovens tiveram acesso ás Universidades. As instituições de ensino estavam lotadas, muito acima do limite. Milhares de jovens de toda a Europa, no período mais fértil de suas vidas, entraram em contato com o conhecimento. De lá para cá, todas as transformações do velho continente são nítidas. Os defensores da Internet se baseiam neste ponto. O conhecimento gera desenvolvimento. Diminui as diferenças, quebra barreira, cria cidadania, fomenta discussão e transformação. Desenvolve.

O decorrer da história nos mostra que, de tempo em tempo, grandes mudanças reorganizam a forma de percepção do mundo. 1968 foi um marco. Lá, os jovens perceberam que o tempo deles passava mais rápido que dos seus pais. Hoje, o tempo é mais veloz. Naquela época (maio de 1968) não existia tantas formas de comunicação como existe hoje. Porém, o contato com a Universidade colocou-os em contato com novas possibilidades de ação, de transformação de realização. Por meio da internet, este contato com a informação tem tamanho inimaginável. Mas, de outro lado, é devastadora a forma que a tecnologia tem se desenvolvido. Tendendo, assim, a excluir cada vez mais os já excluídos tecnologicamente. Como a própria história nos mostrou, sempre foi possível uma nova tecnologia para o desenvolvimento humano. Desde a invenção das ferramentas em pedra lascada até a corrida (maluca) ao espaço, o homem acresceu ao que já acumulava de conhecimento e misturando imaginação e ciência criou alternativas para o que era até então proposto. Desta forma, pensar que a tecnologia atual está estanque, é retrógrado. É andar na contramão da história.

Resta aos senhores da tecnologia um olhar mais amplo e menos egocentrista. O conhecimento humano é para toda a humanidade e não para um pequeno círculo de “senhores feudais do conhecimento”. De nada adiantará novas formas de tecnologia se continuarem escondidas ou inacessíveis.

Eduardo Henrique Brandão

Texto publicado no http:\\eduardohb.wordpress.com em 18/05/2007


Matar a fome, ou investir em tecnologia? Qual o preço?

Maio 24, 2007

Os Paises em desenvolvimento deveriam priorizar a fome e o analfabetismo, porém a produção e a competitividade não permitem que em muitas vezes estas sejam as prioridades. O acesso às novas tecnologias se tornam necessárias e muitas vezes se sobrepõem as questões anteriores.
Seria necessária uma equalização nas prioridades, mas na prática não é isso o que acontece.
Devido ao atraso que alguns paises ficaram nos investimentos de combate a fome e na educação e com a grande necessidade do desenvolvimento infelizmente as tecnologias se tornaram prioridades.

Hoje é uma utopia querer se desenvolver sem o acesso a Internet, a competitividade inexiste sem acesso as tecnologias de comunicação. Os paises em desenvolvimento necessitam correr atrás do tempo perdido, a concorrência não permite a ineficiência da comunicação, então se torna impossível desenvolvimento sem investimentos na Internet.

Não consigo enxergar uma alternativa de desenvolvimento sem o uso da tecnologia, a velocidade nos processos produtivos, a concorrência cada vez maior na distribuição e pesquisa de novos produtos, a globalização, a transmissão de dados cada vez maior devido às empresas estarem cada vez com mais filiais ao redor do mundo buscando a competitividade seria quase impossível sem o uso da tecnologia/Internet.

Seria necessária uma política de combate à fome e ao analfabetismo, mas realmente acredito que cada vez mais irão aparecer dificuldades maiores aos menos favorecidos e este será um outro preço carisimo que os paises em desenvolvimento terão de pagar, e vejo que o preso será muito alto.

José Mário Alves Silva


Um domingo na República das Bananas

Maio 7, 2007

Enquanto um famoso programa dominical tenta jogar a opinião pública contra uma portaria que visa à classificação indicativa para os programas de TV, alegando como espécie de censura, mais um jornalista foi assassinado por desempenhar seu papel.

Foi ao ar ontem, em um programa televisivo de renome, uma reportagem sobre a portaria 264/7 do Ministério da Justiça, que regula a classificação indicativa de programas, filmes ou qualquer obra de audiovisual exibidos pelas emissoras de televisão aberta. Em um discurso claramente exagerado contra o projeto, com argumentações duvidosas e, em certos pontos, não coerente com a emenda, na clara tentativa de colocar a opinião pública temerosa com a censura. O que, na verdade, esconde os reais interesses da “gigante” brasileira, contrária à nova regulamentação. Disfarçada em outras matérias, o tema censura este em voga em dois episódios. Sobre a proibição da biografia do Roberto Carlos e “cenas inéditas” sobre a censura no Brasil, datada de 1983, período mais brando da censura militar.

Por que a “poderosa” tem medo da portaria? Seria pelo conteúdo dos seus programas (digo novelas, seriados), visto que o jornalismo não será afetado pela portaria, que apenas regula horários adequados à faixas etárias. Parecido com o sistema inglês de classificação indicativa. Não sou favorável a um departamento decidir o que devo ou não assistir, tampouco afirme o que é bom ou ruim, mas as redes de televisão deveriam ter certo senso crítico ao levar programas ao ar. Infelizmente, hoje, a qualidade é medida em números do IBOPE. Com isso, a qualidade da TV brasileira cai em profundo precipício. Além do mais, a censura burocrática não seria possível nos dias atuais, devido ás novas tecnologias de comunicação.

No mesmo domingo, no interior do Estado de São Paulo, mais um jornalista tem sua voz calada pela censura econômica (e esta sim me dá medo). Luiz Carlos Barbon Filho, 37 anos, pai de duas crianças, casado, foi assassinado. A polícia suspeita de crime por encomenda. Os mandantes, segundo suspeitas, seriam os envolvidos em um esquema de aliciamento de menores, na cidade de Porto Ferreira (228 km de São Paulo). O caso tornou-se público graças às investigações do jornalista. Sua esposa afirma que recebiam ameaças pelo telefone. Barbon fechou seu jornal devido às ameaças.

Isso sim é censura.

A Associação Nacional dos Jornalistas divulgou uma nota lamentando o crime. Ficaremos só no lamento e nas palavras de indignação? Aos poucos, estão nos amordaçando, calando nossas vozes, mutilando nossos dedos, comprando nossas palavras. Silenciando-nos com chantagens, ameaças e mortes. Cadê a nossa união jornalística? Mas, tudo bem, não foi comigo mesmo. Enquanto o perigo ronda a casa do vizinho, tudo bem, não está no nosso quintal. Quando o vizinho pediu ajuda, recusamos, afinal não corremos perigo mesmo. Ele se foi. Nada fizemos, não é a nossa “realidade”, ainda está distante de nós… Hoje foi um Barbon, no passado foi um Lopes, no futuro poderá ser um Silva, um Brandão, um Pereira, um Peres… Apenas um sobrenome na lápide. Aí, meus amigos, será tarde demais.

Mas, afinal, era final dos campeonatos estaduais. Uns choravam, outros riam, outros nem se importavam. Assim se foi mais um domingo.

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Eduardo Henrique Brandão


1984… nem tão longe assim

Maio 4, 2007

No romance 1984, de George Orwell, o protagonista, Winston, trabalhava em um departamento a qual não sabia o real desempenho. Ele era obrigado a reescrever tudo que fora publicado na imprensa, conforme as últimas decisões do “Grande Irmão”. O correr da história tem nos mostrado a relação entre poder ditatorial e liberdade de expressão. Napoleão ao tomar o poder na França proibiu todas as publicações existentes. Ele criou o seu periódico. Assim, a censura tem caminhado com a ditadura em todos os períodos históricos. Limitado, antes, à queima de publicações, proibições de impressão de livros, quebras de redações e gráficas, entre outros exemplos.

Voltando ao trabalho do Winston, sua rotina era reescrever parte de notícias do passado ao agrado das últimas decisões governamentais. Claro que de modo a favorecer o governo e controlar a opinião pública – inexistente na obra. Na ficção, eliminavam-se os arquivos, mas com cópias devidamente guardadas, o que era reescrito imprimia-se quantidade suficiente para equipar as bibliotecas e registros oficiais.

O que parecia irreal em outras épocas, tem prática comum nos dias atuais. No jornalismo on-line, a reescrita, usado como um tipo de “correção” é facilmente realizado, devido à forma de publicação desta maneira de levar a notícia ao público. As páginas da web, a qual são lidas as informações na Internet, são arquivas em computadores de grande porte, chamados de servidores. Toda a Internet se baseia em linguagem de programação, em termos simples, conjunto de regras e códigos universalizados. Somado com o conteúdo (jornalístico ou não), é gerado um arquivo, e este permanecerá no servidor, podendo ser modificado, acrescentado conteúdo ou até mesmo excluído.

Os serviços de blogs oferecem maneiras simples de editar e de excluir o que se posta. O que de princípio parece inofensivo e cômodo, mas em mãos erradas poderá ocasionar a reescrita do que foi produzido. Mas, em blogs, o conteúdo é, em grande parte, fruto de visões de quem escreve. Raramente defendendo interesses políticos ou econômicos. Contudo, toda a informação contida na “teia mundial” está passiva de sofrer influências. Não é mistério para ninguém que toda a imprensa sofre alguma forma de controle. Entretanto o que está impresso dificilmente poderá ser reeditado.

Meu medo é que, com o passar do tempo, modifiquem o que foi escrito nos dias atuais. Somado ao excesso de informações que somos bombardeados todos os dias, gere, o que cada vez mais é visível, a desinformação, além da possível anulação da opinião pública. Analisando os exageros cometidos pelos meios eletrônicos, temos que concordar com Werner Herzog, ao afirmar que “A solidão humana crescerá na proporção direta da rapidez do avanço das novas formas de comunicação”.
Na obra do Orwell, pensar era proibido, escrever era condenável. O idioma transformado, encurtando a quantidade de palavras e significado. Em nossa realidade, pensar está se tornando cada vez mais nivelado, lamentavelmente para pior. Nos blogs há espaço para expor seus pensamentos, que em muitos casos são cópias de outros blogs. E o idioma (!?), nem se faz necessário comentar o “internetês”. Ainda não estão reescrevendo o passado. Ainda…

Eduardo Henrique Brandão

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